Vida

Quem é você?


Eu me lembro exatamente do dia em que parei de escrever, devia ter uns 17 anos. Entrei no meu quarto e dei de cara com meu pai, sentado na minha cama. Minha madrasta havia lido meu diário e descoberto que eu estava fumando maconha e saindo com um cara que meu pai odiava. Ele estava bem nervoso, falando um monte de coisas mas eu só conseguia pensar, indignada, se não era muita falta de respeito à minha privacidade ela ter lido meu diário, e mexido nas minhas coisas. Foi aí que parei de escrever.

Entrei no mundo das listas. Tarefas, compras, pendências. Mas toda vez que pegava a caneta e o papel, sentia que aquele amigo distante estava ali, na espreita, esperando por uma abertura, por um segundo de conexão. Eu podia senti-lo, ouvir sua respiração, mas não, eu não confiava mais. Não era sua culpa mas por causa da nossa amizade, meu mundo interno havia sido invadido. Meus segredos, jogados no chão.

É fácil se conectar consigo mesmo, mas não tão fácil sair da superfície e mergulhar dentro de pensamentos, prisões. Achar a chave da cela e se libertar de si mesmo ali no papel. Nem todo mundo tem essa coragem. É preciso se ver alem do reflexo, andar entre os cacos de vidro do espelho quebrado, atravessar a moldura e se estender a mão. Dizer a si mesmo que esta tudo bem, que você esta ali, e que isso é muito. Se ajudar a levantar, sorrir para si, aquecer a sua alma com seu próprio amor. Seu amor próprio.

É dessa conexão que nascem as conexões. As reais conexões. É desse amor-raíz, dessa clareza e autenticidade que nascem os laços magnéticos que trarão de volta exatamente quem é de nós. Nossos verdadeiros amigos, nossos verdadeiros amores. Aqueles que sabem que não somos perfeitos mas eles não ligam, até gostam. Tudo é tratado com amor, quando você aprende que a fonte de todo amor está ali dentro de você. Naquele espaço que você aprendeu a ir e vir.

E por isso voltei a escrever, percebi que não há nada a temer. É a minha vulnerabilidade que me faz real, que me faz viva e consequentemente, feliz. Hoje, essa sou eu.

Quem é você?

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2 Comments

  • Reply
    Ana Virgínia
    16/07/2018 at 9:24 pm

    Aline.
    Que rico seu blog e seus escritos.
    Interessante essa sua experiência com seu diário. rs.
    Eu fiz um trabalho acadêmico que me levou à reflexão do hábito do “diarismo”, a escrita sobre nós mesmos, sobre o que somos, o que queremos, quem queremos…
    Desde 2011 eu escrevo no blog Filha de José.
    A escrita foi uma fuga pra mim. Fuga de uma dor e angústia por causa da morte de meu pai. Escrever as minhas dores e ler as dores de outras pessoas que tinham blogs semelhantes foi um processo terapêutico na minha vida.
    Encontrei com pessoas de outros blogs pessoalmente e nesses encontros conseguimos concretizar os sorrisos e abraços que enviávamos nesses espaços de comentários.

    Às vezes, por conta da quantidade de coisas que faço… fico tempos sem postar, navegar, sem conhecer outras “blogueiras”.

    Mas este espaço me faz bem… essa escrita sobre nós… nos faz conhecer-nos melhor também.

    Abraço pra você.

    AnaVi.

    filhadejose.blogspot.com

    • Reply
      Aline
      20/07/2018 at 7:39 pm

      Escrever é um ato revolucionário e terapeutico, com certeza. É nossa conexão sincera com nosso coração. Imagino a sua dor, e me orgulho de sua coragem! 🙂 Espero que hoje seja mais fácil do que foi ontem.
      Eu também busquei os blogs para encontrar pessoas com pensamentos parecidos, conhecer outros angulos, ampliar amizades. Esse é o presente da internet, que bom que me encontrou! 🙂

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